sábado, 18 de julho de 2009

Entrevista do cardeal Claudio Hummes sobre o Ano Sacerdotal

No dia 19 de junho, o Papa Bento XVI inaugurou o Ano Sacerdotal, com o tema: "Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote".
Sobre o assunto, o Cardeal Claudio Hummes, OFM, prefeito para a Congregação do Clero, concedeu a seguinte entrevista a "Zenit", órgão de comunicação católico.

Qual é o principal objetivo do ano sacerdotal?

Será um ano jubilar pelos 150 anos da morte de São João Maria Vianney, mais conhecido como Cura de Ars. Esta é a oportunidade, mas o motivo fundamental é que o Papa quer dar aos sacerdotes uma importância especial e dizer quanto os ama, quanto os quer ajudar a viver com alegria e com fervor sua vocação e sua missão.
Esta iniciativa do Papa acontece num momento de grande expansão de uma nova cultura. Hoje domina a cultura pós-moderna: relativista, urbana, pluralista, secularizada, laicista, na qual os sacerdotes devem viver sua vocação e sua missão.
O desafio é entender como ser sacerdote neste novo tempo, não para condenar o mundo, mas para salvar o mundo, como Jesus, que não veio para condená-lo, mas para salvá-lo. O sacerdote deve fazer isso de coração, com muita abertura, sem "demonizar" a sociedade. Deve estar integrado nela com a alegria missionária de querer levar as pessoas desta sociedade a Jesus Cristo.
É necessário dar uma oportunidade para que todos orem com os sacerdotes e pelos sacerdotes, convocar os sacerdotes a orar, fazê-lo da melhor maneira possível na sociedade atual e também, eventualmente, tomar iniciativas para que os sacerdotes tenham melhores condições para viver sua vocação e sua missão.
É um ano positivo e propositivo. Não se trata, em primeiro lugar, de corrigir os sacerdotes. Há problemas que sempre devem ser corrigidos e a Igreja não pode fechar os olhos, mas sabemos que a grande maioria dos sacerdotes tem uma grande dignidade e adere ao seu ministério e à sua vocação. Dão sua vida por esta vocação que aceitaram livremente.
Lamentavelmente, existem os problemas dos quais nos inteiramos nos últimos anos relativos à pedofilia e outros delitos sexuais graves, mas, no máximo, talvez cheguem a 4% do clero. A Igreja quer dizer aos 96% restantes que estamos orgulhosos deles, que são homens de Deus e que queremos ajudá-los e reconhecer tudo o que fazem como testemunho de vida.

Por que o Papa apresenta São João Maria Vianney como modelo dos sacerdotes?

Porque há muito tempo é o padroeiro dos párocos. Faz parte do mundo do presbítero. Queremos também estimular as nações e conferências episcopais ou igrejas locais para que escolham algum sacerdote exemplar de sua área, apresentá-lo ao mundo e aos jovens. Homens e sacerdotes que sejam verdadeiramente modelos, que possam inspirar e renovar a convicção do grande valor e da importância do ministério sacerdotal.

Para o senhor, como sacerdote, qual é o aspecto mais belo de sua vocação?

Esta pergunta me faz recordar um fato de São Francisco de Assis. Ele disse uma vez: "Se eu encontrasse pelo caminho um sacerdote e um anjo, saudaria primeiro o sacerdote e depois o anjo. Por quê? Porque o sacerdote é quem nos dá Cristo na Eucaristia". Isto é o mais fundamental e maravilhoso: o sacerdote tem o dom e a graça de Deus para ser ministro deste grande mistério da Eucaristia.
Depois, temos também o sacramento da Reconciliação. Jesus disse: "A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados". Veio para reconciliar o mundo com Deus e os seres humanos entre eles.
Há muitas outras ações, como a evangelização, o anúncio da pessoa de Jesus Cristo morto e ressuscitado, de seu reino. O mundo tem direito de saber e conhecer Jesus Cristo e tudo o que significa seu Reino. Este é um ministério específico do sacerdote, que compartilha com os bispos e com os leigos, que anunciam a Palavra para levar as pessoas a um encontro intenso e pessoal com Jesus Cristo.

Como o senhor acha que deve ser a formação do seminarista? Que aspetos não podem faltar?

A Igreja fala de quatro dimensões que devem ser cultivadas pelos candidatos.
Em primeiro lugar, a dimensão humana e afetiva: sua natureza, sua dignidade e uma maturidade afetiva normal. Isso é importante porque é a base.
Depois, a dimensão espiritual. Hoje nos encontramos diante de uma cultura que já não é nem cristã nem religiosa. Portanto, é ainda mais necessário desenvolver bem a espiritualidade nos candidatos.
Em terceiro lugar, a dimensão intelectual. É necessário estudar filosofia e teologia para que os sacerdotes sejam capazes de falar e de anunciar Jesus Cristo e sua mensagem hoje, sem medo do diálogo entre a fé e a razão humana.
Por fim, obviamente, a dimensão pastoral, ou seja, deve-se preparar estes candidatos para serem pastores no mundo de hoje. Contudo, os sacerdotes devem ter não só uma preparação, mas também um estímulo forte para não se limitar a oferecer seu serviço àqueles que vem para vê-los, mas também para sair em busca das pessoas que não vão à Igreja, sobretudo daqueles batizados que se afastaram porque não foram suficientemente evangelizados.

Que atividades especiais serão realizadas neste ano, tanto para os jovens como para os próprios sacerdotes?

Haverá iniciativas no âmbito da Igreja universal, mas o ano do sacerdote deve ser celebrado também nas dioceses e nas paróquias, porque os sacerdotes são os ministros do povo e devem incluir as comunidades. As dioceses devem impulsionar iniciativas tanto de aprofundamento como de celebração, para levar aos sacerdotes a mensagem de que a Igreja os ama, respeita, admira e se sente orgulhosa deles.

O senhor poderia falar-nos dos desafios que um sacerdote enfrenta nesta sociedade tão antirreligiosa?

Em primeiro lugar, a Igreja, através de seus formadores, deve fazer uma seleção muito rigorosa dos candidatos. Depois, é necessário ter uma boa formação na dimensão humana, intelectual, espiritual, pastoral e missionária. É fundamental recordar que o sacerdote é discípulo de Jesus Cristo e estar seguro de que tenha tido este encontro pessoal e comunitário intenso com Jesus Cristo, que lhe tenha dado sua adesão.
Gosto de repetir que os sacerdotes não são importantes só pelo aspecto religioso dentro da Igreja. Desempenham também um grandioso trabalho na sociedade, porque promovem os grandes valores humanos, estão muito perto dos pobres com a solidariedade, a atenção pelos direitos humanos.
Creio que devemos ajudá-los para que vivam esta vocação com alegria, com muita lucidez e também com coração, para que sejam felizes, dado que se pode ser feliz no sacrifício e no cansaço. Ser feliz não está em contradição com o sofrimento. Jesus, na cruz, sofria tremendamente, mas era feliz, porque sabia que o fazia por amor e que isto tinha um sentido fundamental para a salvação do mundo.

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